A maior recompensa foi ele ter dito "No dia do trote você sumiu" e o maior arrependimento foi de eu ter dito o porquê com uma mentira mais do que idiota. Calada eu teria ficado feliz o suficiente pelo resto da manhã que vagabundei com ele nos tanques de anfíbios, falando sobre maconha, sexo, e corrupção dos professores. Eu estava estranha, esperando algum tipo de afeição. Ele parecia indiferente e falador, sussurrando do jeito que me fez apaixonar, mexendo os dedos de unhas longas. Eu só não entendia por que estávamos no mato sem cigarro, falando merda e ele nem sequer se aproximava para que eu o beijasse. Talvez só quisesse que eu o atacasse para depois fofocar pros amigos.
E Marcelo, que vi um dia antes da minha ansiada terça de morfologia-e-sistemática-de-criptógamas-I. Eu consigo ser loucamente apaixonada por ele, e ele consegue me ignorar sem fazer muito esforço. Mesmo assim eu pareço não ter muita vergonha enquanto tento beijá-lo o mais perto da boca possível.
Aí Ighor e Marcelo, Marcelo e Ighor - juntos. Preferi Marcelo, e depois fugi com Ighor pro CEB, onde ele, num gesto raro, me abraçou e beijou na biblioteca quando confundi uma preguiça gigante com um dinossauro. Ele é estagiário de paleonto, e eu sou uma caloura idiota que gosta de abelhas. Eu gosto do cheiro de Ighor, suor, perfume e cigarro. Gosto do sal em seu pescoço, dos seus lábios estranhos e distantes.
Hoje ele mostrou uns fósseis para uma profa, Marlucy?, enquanto eu observava e ouvia. Tive vontade de fazer anotações sobre as pessoas, sobre o que eu aprendia e estranhava feito uma criança. Daí esse meu post em forma de diário. Eu queria me manter atualizada sobre mim mesma, a respeito da minha memória desgraçada. Eu queria lembrar de Ighor e das suas palavras macias. A menina que copiava.